O dia foi duro. Em uma fase estranha da vida, na qual o simples fato de ir direto para casa era uma derrota, havia um momento próprio de criação que se repetia naquele dia: uma dose de scotch, uma música e uma página em branco. Éramos rockstars e não sabíamos.
Quantas e quantas vezes eu não parei pra compor com trilha sonora e uma dose de uísque. Não sei se a poética desse clichê que me pegou, ou se tenho alma de roqueiro velho e não sabia. Só sei que, mesmo com a dura polêmica de escolher um álbum do Led Zeppelin pra falar sobre, escolhi o segundo. Porque meu favorito é o quarto álbum, uma obra-prima da humanidade, mas o segundo foi o que mais me inspirou.
Capa pra você não errar na hora de comprar na loja.
Por que o Led Zeppelin "II" é foda:
+ Saiu em 1969, que foi um puta ano pra música
+ Mistura rock, blues e folk
+ É considerado um dos álbuns mais influentes da história
+ Foi gravado em estúdios obscuros e precários
+ Tem solo de bateria do John Fucking Henry Bonham
Dia 13 de julho é o Dia Mundial do Rock. Por isso, combinei com o Enzo de fazermos uma maratona de nossos álbuns favoritos durante toda a semana. Um grande tributo.
Tínhamos conversado várias vezes, e ele até postou aqui sobre o assunto, que a geração iTunes/MP3 não sabe o prazer que é comprar um álbum na loja com capa, encarte e um grupo de músicas que representa a banda em algum determinado momento. Suas intenções, mensagens, contexto histórico e etc.
Abrir o plástico e ouvir o disco pela primeira vez, enquanto folheia o encarte e acompanha as letras. Não vou entrar no mérito aqui das sacanagens das gravadoras ao longo dos anos, piratarias, compartilhamentos e etc. Só vou falar da sensação inocente de comprar, ouvir e curtir um LP ou CD.
É diferente de um pendrive com MP3 e músicas agrupadas em ordem alfabética, ordem crescente de tamanho ou qualquer outro critério. As faixas tinham uma sequência por um motivo. Simplesmente diferente.
O primeiro disco da semana é o Powerage do AC/DC. Por sinal, meu disco favorito da banda que mais me inspirou como guitarrista até hoje.
Powerage foi gravado em 1978 e é o quinto álbum dos caras. Ainda com Bon Scott nos vocais, o disco tem uma sonoridade bluesy que me conquistou logo na primeira vez que ouvi. Ele mostra um amadurecimento da banda e um retorno às origens blueseiras de Angus e Malcolm Young.
Foi um ano até que movimentado. O Sex Pistols anunciavam o fim da banda; Black Sabath lançava seu oitavo disco, o último com Ozzy; Whitesnake e The Police lançavam seus álbuns de estreia; Rush lançava o Hemisphere e Ramones, o Road to Ruin, com o baterista Marky Ramone.
A primeira faixa que ouvi do Powerage foi Gone Shootin'. Ironicamente, no disco que tinha a trilha sonora do longa do Beavis e Butthead. Mais tarde, comprei o álbum e fiquei impressionado com os riffs, timbres e pegada.
Gone Shootin'.
Álbum completo.
Não me lembro onde li que o AC/DC é o Rolling Stones plugado no 220 v. Faz muito sentido.
Angus Young, Jimmy Page, Eric Clapton, Steve Ray Vaughan, John Mayall, Billy Gibbons, Jeff Beck, entre outros pesos pesados, beberam na mesma fonte do blues negro americano. Suas influências são variadas e algumas bem conhecidas. Outras, nem tanto.
Elmore James foi um guitarrista de blues da década de 50.
Algumas de suas composições ficaram mais famosas justamente com a regravação de artistas mais novos.
Com uma voz marcante, técnica e feeling invejáveis no slide, não é a toa que Elmore James tenha influenciado tanta gente.
Antes de sua carreira solo, o cara tocou com Sonny Boy Williamson, outro ícone do Blues que merece um post de homenagem aqui. Provavelmente em outra oportunidade.
Hoje, vamos ouvir Elmore James. Blues before Sunrise.
O blues teve um filho, e o nome dele é rock n' roll. Curta Shake your Money maker.
Alguns ensaios atrás, lá estava eu, todo feliz e pimpão, improvisando meus solos de guitarra Blues com pentatônicas, pentatônicas m6, arpejos. Curtindo o som.
Até que chegou o momento de tocar uma música do primeiro rei deste post. O lendário B.B. King. Exceto por uma frase ou outra que já tinha memorizado e/ou executado por instinto, é quase impossível manter um improviso com a beleza e perfeição de Riley Ben King.
Percebo que guitarristas fritadores punheteiros, embora eles não admitam, subestimam B.B. King. Dizem que respeitam porque leram em alguma Guitar Player ou Cover Guitarra que o cara é bom, mas, no fundo, não entendem o motivo. Eles estão em seus quartos, com os metrônomos no turbo, fazendo exercícios de semifusas e os últimos sweep pickings de Malmsteen. Tudo para compor músicas que são apenas variações dos mesmos exercícios. Ou então, irem na apresentação do G3, com a plateia composta apenas de outros alunos punheteiros de guitarra.
Se você se enquadra na situação acima e quer um desafio, tenho uma dica: estude B.B. King. É uma das coisas mais difíceis de se tocar.
Curtam um show do rei de 1983.
Daí, lembrei que B.B é o último rei do blues vivo. Vale a pena fazer um post de homenagem aos outros dois: Freddie e Albert.
Freddie King, "the Texas Cannonball" é autor de diversos clássicos do Blues. Assim como Otis Redding, várias de suas interpretações foram regravadas por artistas mais contemporâneos, como Eric Clapton, Johnny Winter e até mesmo uma versão no primeiro G3 de "Going Down", com Satriani, Vai e Eric Johnson.
E going down no G3.
Não só por seus 1,93 m de altura e 118 kg, Albert King é um gigante. Com sua Gibson Flying V, uma voz marcante e encorpada e sucessos como "Born under a bad sign", o cara foi influência de meio mundo, mas uma pessoa em especial merece destaque aqui: Stevie Ray Vaughan.
Confira mestre e discípulo (que também é um mestre) na jam abaixo:
Vi B.B. King em sua última passagem pelo Brasil, em 2012. Saber que ele já está com 87 anos gera um sentimento de admiração e, ao mesmo tempo, um aperto no peito. Nossos reis deveriam ser eternos.
Para encerrar, outra jam. Dê uma olhada neste time.